WebÁlbum
TALENTS
 
 
 
 
A verdade do marketing e o marketing da verdade

Autor: Fernando Nascimento
Superintendente da TV Liberal e Presidente da APP-Pará

Um entendimento incorreto e equivocado do genuíno papel e do verdadeiro significado do marketing, permitiu que se cunhasse, ao longo do tempo, um conjunto de expressões -a cada dia mais usuais e freqüentes-, todas elas altamente depreciativas em relação aos profissionais e à atividade mercadológica.

"Isso é coisa de marketeiro", ou: "esse projeto, é só marketing", ou ainda: "é tudo marketing"; isto, ou aquilo, não passa de marketing"; e por aí afora.

A partir desse momento se disseminou um conceito que associa a atividade do marketing a algo que mascara, distorce, superficializa e até falsea a sua verdadeira missão. Raimar Richers, em "Marketing uma visão brasileira", foi o primeiro a fazer uma reflexão e a denunciar esse fenômeno, que ele chamou de "o deboche do marketing". Segundo Raimar Richers, para a grande maioria dos brasileiros o marketing não é encarado como uma disciplina a serviço da eficácia da empresa. Mal-entendido como é, o marketing chega a ser equiparado a um deboche, sinônimo de vigarice, malandragem. José Serra, para citar um exemplo recente, no discurso de posse como novo presidente do PSDB, em meio a uma profusão de críticas ao governo petista, se refere ironicamente ao programa Fome Zero como a maior realização virtual do atual governo, um grande sucesso de marketing.

Na visão de Raimar Richers, grande parte dessa confusão se deve ao tratamento dado pela mídia que, por falta de conhecimento, acaba ajudando a divulgar notícias e informações que desnorteiam o público, inclusive empresários, sobre o que fazer com o conceito de marketing, como usá-lo corretamente.

Assim temos, de um lado, o marketing como ciência e técnica criadoras de instrumentos capazes de otimizar os resultados e a operação das empresas e das instituições e, do outro, uma comédia de falsificações.

Tudo começou a partir da crença generalizada de que o marketing pode tudo: é capaz de, por si só, viabilizar um empreendimento,garantir a performance de um produto, assegurar uma trajetória vitoriosa a uma facção ou a um político, ajudar os fabricantes a salvar ou a se livrarem de produtos de qualidade duvidosa.

O marketing, por todas essas razões, virou um vilão, para quem, de alguma forma, foi manipulado pela utilização inescrupulosa do seu fantástico arsenal de recursos técnicos. É claro, portanto, que quem acreditou num projeto; quem confiou no discurso de um político; no conteúdo programático de um partido; nos atributos de um produto; tudo isso apresentado com todos as ferramentas do marketing moderno e se frustrou, porque o projeto acabou não decolando; o político nunca cumpriu o que prometeu; o partido jogou no lixo as suas plataformas; o desempenho do produto ficou muito abaixo das promessas; certamente vai engrossar as fileiras daqueles que atribuem ao marketing a frustração de suas expectativas. Para a "vítima", "tudo não passou de marketing" ou tudo foi "puro marketing", ou ainda "coisa de marketeiro".

Uma análise mais acurada, contudo, indica, em primeiro lugar, que o marketing não pode tudo. Na verdade, pode menos do que a nossa vã filosofia imagina, sobretudo quando trabalha sozinho, sem uma sólida aliança multifacetada.

Em segundo lugar, é necessário estabelecer uma clara distinção entre um resultado efêmero, fulgaz, produzido por um pseudo-marketing e o sucesso continuado, de longo prazo, consistente, sustentado pelas técnicas mercadológicas, mas igualmente apoiado em idéias inovadoras, em serviços e produtos diferenciados e de reconhecido padrão de qualidade, capazes de satisfazer as expectativas e anseios de seus consumidores e usuários e alicerçado em sólidos compromissos éticos e de responsabilidade sócio-ambientais. Este sim, é o verdadeiro marketing.

O outro, o marketing da contrafação, aquele que produz projetos que nem chegam a ser concluídos ou quando o são, diferem tanto do original, que não conseguimos reconhecê-los; ou aquele que se afunda no fosso entre o discurso e a prática política, do candidato ou do partido; ou o marketing-do-engodo que frustra o consumidor que não encontra os benefícios e a satisfação anunciadas. Esse é um marketing de morte anunciada e de sobrevivência fulgaz.

Ao contrário, o verdadeiro marketing cumpre um papel extremamente relevante no mix das ciências dos negócios e da comunicação, é o formador de vínculos estáveis e de relacionamentos consistentes com diferentes públicos - os stakeholders - com os quais as empresas interagem e é o responsável pela construção do maior ativo intangível das organizações, a sua marca e o seu maior instrumento de inovação e fidelização.

Ler outros artigos
topo