05/11/06
TENHO MAIS DE 40. ISSO É BOM OU RUIM PARA MINHA CARREIRA?
Autor: Joaquim Maria Botelho
O homem e a mulher, aos 40 anos, atingiram a plena maturidade física, psicológica e espiritual. A maioria já constituiu família, convive em rotina equilibrada e tem um histórico profissional sólido. Adquiriram experiência e ponderação.
Mas ao contrário do que se possa pensar, a idade é um fator que pesa contra a contratação de um executivo. Tanto é assim que um grupo de indústrias de Minas Gerais virou notícia, na edição do dia 26 de outubro do Jornal Nacional, da TV Globo, porque estão contratando executivos com mais de 40 anos para gerenciarem a produção.
Os executivos que ultrapassaram essa faixa de idade, de modo geral, temem perder o emprego, porque consideram a recolocação difícil já que o mercado é restrito para eles. Será que este temor tem base em fatos?
Vamos fundamentar esta discussão com pesquisas, porque os números estabelecem realidades indiscutíveis.
DISCRIMINAÇÃO DA IDADE
O Grupo Catho promoveu uma pesquisa com 7.002 executivos de 31 empresas, e os números confirmam certa discriminação de idade nos cargos intermediários.
*A porcentagem de executivos com mais de 50 anos e que ocupam cargos de gerente é de 15%; nos cargos de supervisor a porcentagem é de 6,4%.
A discriminação diminui nos níveis hierárquicos mais altos.
*31,4% dos executivos nos cargos de diretores, vice-presidente e presidente estão acima dos 50 anos.
A conclusão que a pesquisa permite é de que os executivos que não foram promovidos ao nível mínimo de diretor com 50 anos têm poucas chances de permanecer nas empresas.
A idade mediana dos executivos demitidos nos últimos 12 meses é de 47,1 anos nos cargos de diretor e vice-presidente e de 41,4 anos no cargo de gerente. A idade mediana dos executivos contratados é de 4 a 5 anos menor do que a idade mediana de executivos demitidos. Esta é uma indicação de discriminação de idade: as empresas demitem os executivos mais velhos e contratam executivos mais jovens.
A PREFERÊNCIA POR JOVENS
Na mesma pesquisa, buscamos analisar os dados apresentados por 503 altos executivos de 503 empresas diferentes. Os resultados apresentam uma preferência acentuada por executivos mais jovens, embora indiquem também que o executivo que toma as melhores decisões é aquele que tem idade média de 51,5 anos. A principal rejeição aos executivos mais velhos diz respeito à resistência que apresentam às mudanças: segundo os entrevistados, executivos com idade mediana de 53,6 anos de idade não aceitam novos métodos e procedimentos com facilidade.
Ilson Silva Pereira, gerente de Recursos Humanos da Sara Lee/Brasil, unidade brasileira da maior fabricante mundial de meias, ele próprio com 40 anos de idade, concorda com essa premissa. "Somos todos naturalmente inflexíveis a mudanças", diz ele, "e temos que cuidar para que essa característica não se acentue com a idade. Efetivamente o executivo mais maduro se atualiza menos, e exemplo disso é o idioma inglês, em que a maioria dos executivos fluentes, hoje em dia, é de pessoas mais jovens. Talvez porque no passado não se exigisse tanto. E, hoje, enquanto os jovens têm à disposição ferramentas de aprendizado e aprendem a falar inglês muito mais cedo, os mais maduros não encontram muita motivação para isso, e acabam ficando para trás. No caso da nossa empresa, economia de custos é muito menos responsável pela contratação de pessoas mais jovens do que essa disposição para aprender e para se atualizar."
Parece que a "idade de ouro" para o executivo que atingiu cargo elevado em hierarquia é de 45 anos, que na pesquisa aparece como a idade em que o executivo apresenta o melhor desempenho.
Na empresa Visanet, a política adotada é de mesclar o arrojo da juventude à ponderação da maturidade. Segundo Pedro Diaz, gerente de Call Center, de 31 anos, a metade dos diretores executivos e de área da empresa é de jovens, e a outra metade de pessoas mais maduras. "A única diferenciação diz respeito ao cuidado com os check-ups médicos, que são mais completos para os executivos com mais idade", diz ele.
As razões apresentadas na pesquisa para a preferência pelos mais jovens são as seguintes:
*O executivo mais pontual tem, em média, 42 anos.
*O executivo mais disposto a trabalhar 12 horas por dia tem, em média, 36,5 anos
*O executivo mais disposto a trabalhar em equipe tem, em média, 37,7 anos
*O executivo mais flexível tem, em média, 40 anos
*O executivo mais ousado, que arrisca mais, tem em média 32,6 anos
*O executivo mais atualizado tecnicamente tem, em média, 32,2 anos
*O executivo que aceita mais rapidamente novas tecnologias tem, em média, 30 anos
CRITÉRIOS PARA DEMISSÃO
Idade é, certamente, um critério que se associa a salário, no momento em que uma empresa decide efetuar demissões.
Para executivos com mesmo desempenho, o escolhido para demissão, em 70% dos casos, é o mais velho. A razão parece simples: executivos mais velhos ganham até 100% mais do que executivos mais jovens em cargos idênticos.
Uma outra pesquisa realizada com 9.484 executivos de todo o país permite um cruzamento de informações para confirmar esta situação:
- Numa empresa de grande porte, um gerente que tem entre 56 e 60 anos pode receber até R$ 92.300,00 por ano, enquanto um gerente com menos de 30 anos de idade recebe em torno de R$ 56.000,00 por ano. No caso de executivos do sexo feminino, uma gerente com idade entre 46 e 50 anos ganha R$ 65.000,00 por ano, enquanto uma gerente com idade entre 31 e 35 anos ganha R$ 46.800,00 por ano.
- Numa empresa de pequeno porte, um gerente que tem entre 56 e 60 anos pode receber até R$ 58.500,00 por ano, enquanto que um gerente com menos de 30 anos recebe em torno de R$ 28.971,00 por ano. No caso de executivos do sexo feminino, uma gerente com idade entre 41 e 45 anos ganha R$ 36.400,00 por ano, enquanto uma gerente com menos de 30 anos ganha R$ 25.015,00 por ano.
O contraponto para a situação é que o executivo mais velho demite menos os mais velhos. Ou seja, em empresas em que o executivo que decide é maduro, os executivos mais velhos têm sobrevida profissional mais longa.
IDADE PARA ATINGIR CARGOS
Em geral, os níveis mais altos de hierarquia são atingidos por executivos acima dos 40 anos, e as mulheres costumam chegar com menos idade a esses postos.
Uma outra pesquisa do Grupo Catho, com 1.356 executivos de todo o país, resulta no seguinte quadro:
Para o cargo de presidente, a idade média para homens é de 47,5 anos
Para o cargo de presidente, a idade média para mulheres é de 41,63 anos
Para o cargo de diretor, a idade média para homens é de 44,61 anos
Para o cargo de diretor, a idade média para mulheres é de 40,58 anos
Para o cargo de gerente, a idade média para homens é de 41,09 anos
Para o cargo de gerente, a idade média para mulheres é de 36,29 anos
Outros dados importantes da mesma pesquisa mostram que presidentes do sexo masculino estão em média há 7,55 anos no emprego e ocupam a função há 3,26 anos; presidentes do sexo feminino estão em média há 7,83 anos no emprego e ocupam a função há 4,50 anos. À medida que diminui o nível de hierarquia, diminui o número mediano de anos em que as mulheres estão no emprego, à média de 20%, o que mostra que as mulheres permanecem menos nas empresas do que os homens. Esta informação é importante porque a pesquisa indica que o presidente em geral assume este cargo depois de uma permanência média de 7 anos na empresa.
Por outro lado, observa-se que o tempo de permanência de um executivo nos cargos mais altos da hierarquia raramente ultrapassa os 4 anos.
Todos esses dados nos levam de volta à questão da idade preferencial para demissão, e que está em torno dos 45 a 50 anos, segundo indicam os números. E daí? - perguntariam os leitores. Para um executivo demitido, a vida profissional acaba aos 45?
A VIDA PROFISSIONAL ACABA AOS 45?
Não, não acaba. E as próprias pesquisas indicam os novos caminhos que têm sido trilhados pelos executivos que ultrapassam a faixa de idade considerada crítica. Eles vêm, cada vez mais, deixando de ser empregados e passam a trabalhar como consultores.
Vejamos:
As 503 empresas consultadas contrataram mais consultores (757) do que gerentes (701). Desses consultores, 382 tinham idade acima de 45 anos.
A existência de um grande mercado para os executivos maduros como consultores é uma das grandes conclusões da pesquisa: eles podem perder o emprego por causa da idade mas encontrar trabalho como consultores.
Numa amostra de 9.484 respondentes em uma pesquisa sobre remuneração de executivos, verificou-se que 2.910 (ou 30,7%) trabalham sem registro em carteira profissional, como prestadores de serviços - normalmente na função de consultores.
Neste universo de 2.910 pessoas, 1.780 são homens e 1.130 são mulheres, uma distribuição razoavelmente equilibrada.
O gerente de Recursos Humanos da Sara Lee/Brasil considera que a contratação de ex-funcionários como consultores é uma maneira de manter a experiência deles a serviço da empresa e ao mesmo tempo de dar chances para que se mantenham na ativa. "Reconheço que é uma tendência do mercado de trabalho para executivos e acho uma alternativa muito boa. Mas é preciso sempre analisar com cuidado cada caso, porque há uma tendência de as pessoas com mais idade caírem num certo comodismo."
http://www.catho.com.br/jcs/inputer_view.phtml?id=220
A CONSULTORIA COMO OPÇÃO
Nossas pesquisas indicam que tende a diminuir a porcentagem de executivos mais velhos empregados sob as regras da Consolidação das Leis do Trabalho nas empresas. Pelo menos 20,20% dos executivos ouvidos já trabalham como consultores, e 55,8% dos executivos ouvidos gostariam de trabalhar como consultores.
Outros dados:
*23,97% querem ter um negócio próprio.
Mas 47,36% dos executivos que trabalham em tempo integral esperam ficar, em termos medianos, 3,56 anos mais com seu atual empregador.
*23,50% dos executivos trabalhando para empresas em tempo integral têm trabalho paralelo.
Mas 41,7% dos executivos empregados foram mal sucedidos em seu próprio negócio.
Uma das conclusões que se retira desses dados é de que a consultoria é uma forma mais eficiente de ocupação do que o negócio próprio porque depende exclusivamente da capacidade, talento e experiência do executivo. O consultor vende conhecimento. Que produto pode ser mais precioso?
Ademais, a grande distância entre a mais desejável idade do consultor (45,7 anos para diretor e vice-presidente) e a idade mediana de consultores contratados nos últimos 12 meses (43,2 anos) indica que há uma pequena parcela de consultores mais velhos, e, portanto, uma grande oportunidade para eles.
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