Pausa para a folia!
Que rufem os tambores, ou melhor, as baterias! Hora das agremiações acertarem seus últimos passos e colocarem suas escolas de samba para desfilar.
Para a alegria do povo, os "blocos de sujos", há tempos sumidos, ressurgem nas ruas de Belém. Municípios como Vigia, Curuçá, Bragança e tantos outros, mantém suas tradições. Aos poucos, o antigo carnaval conquista seu espaço novamente. Simplicidade e alegria se encontram em três dias de folia. O Pará está em festa!
Na verdade, a folia começa muito antes de fevereiro. O bloco "Império Romano", no dia 25 dezembro, anuncia o carnaval fora de época dos paraenses. A quebra das tradições mostra-se na irreverência de seus foliões, envoltos em lençóis brancos, trazendo à frente "A galinha do Ramalho" - carro abre alas -, que ganha, a cada ano, mais "efeitos especiais".
O grupo musical, Arraial do Pavulagem, também trouxe sua contribuição. A partir de 2003, em mais um de seus projetos, presenteou Belém com o Cordão do Peixe-Boi, um cortejo popular, com ênfase em temas ambientais. O cortejo tem o propósito de fazer um apelo ecológico à sociedade. Vai às ruas no final de semana anterior ao carnaval, saindo do Praça do Pescador, em direção à Praça do Carmo, onde faz seu ritual de chegada.
Finalmente um resgate à cultura popular. Como disse certa vez o poeta João de Jesus Paes Loureiro, referindo-se ao desenvolvimento cultural do Estado: "Belém desencabulou. O estado está desencabulando. Quer dizer, não se encolhe; não fica encabulado de ter esta ou aquela manifestação, como se ela não fosse uma manifestação bacana e capaz de ser admirada". Na realidade o povo paraense, aos poucos, se reencontra com sua auto-estima e se orgulha cada vez mais, de suas raízes.
Ufa! Em meio a tanta violência, uma pausa para a folia! Que, pelo menos, até a quarta-feira de cinzas, as manchetes de jornais façam reverência à beleza do carnaval. Um brinde à alegria! Um brinde à PAZ, em tempo de festa! FELIZ CARNAVAL A TODOS.
ENTREVISTA
Junior Soares, 42 anos, natural de Bragança, economista, com especialização em administração de projetos.
Junior é um dos músicos e também, um dos fundadores do Grupo Arraial do Pavulagem. Ele fala sobre a banda, seus projetos e a forma como se organizam, mostrando, em sua gestão, uma similaridade muito grande com a estrutura e procedimentos de outras empresas mais tradicionais. Veja o que ele diz:
1. Como surgiu o Arraial do Pavulagem?
Em 1987, da iniciativa de um grupo de músicos e compositores paraenses que tinham como objetivo a valorização e divulgação da música de raiz feita na região amazônica e a constituição de uma relação mais próxima com o público. Assim, o grupo iniciou uma brincadeira aos domingos na Praça da República, utilizando-se da alegoria de um boizinho na tala, que visava atrair o público presente para assistir à apresentação musical, no palco do teatro Experimental Waldemar Henrique. Era o começo dos cortejos de cultura popular, denominados "Arrastões do Pavulagem".
Em 2003 foi criado o Instituto Arraial do Pavulagem, uma organização da sociedade civil, sem fins lucrativos, que desenvolve ações de educação e cultura na Amazônia.
2. Fazendo uma analogia com os tipos tradicionais de empresas, como funciona a estrutura do grupo?
O Arraial do Pavulagem funciona da seguinte maneira: a coordenação geral é feita por três pessoas, que funcionam como um conselho diretor. Em seguida vêm diversas comissões com funções diferenciadas e que são formadas a cada cortejo: uma que organiza as oficinas, os ensaios e toda a relação com o Batalhão da Estrela. Outra que cuida da estética do cortejo. Outra que é responsável pela organização das crianças no cortejo. Outra ainda, pela comunicação. Todas com coordenadores que respondem perante a coordenação geral.
Além disso, há designação de funções, em grande parte remuneradas, com metas e prazos a serem cumpridos, buscando sempre apresentar um produto cultural de qualidade.
3. O que significa o Cordão do Peixe Boi?
O círculo lúdico da vida. Desde 2003, o Cordão do Peixe-Boi abre o calendário anual de atividades do Arraial do Pavulagem. Sua concepção está ligada à memória dos antigos Cordões de Bichos, que demonstravam um elo fortalecido de união do ser humano com a natureza e a representação-ritual da morte e ressurreição, em consagração à vida.
A ligação com o presente e o símbolo da brincadeira é a imagem do Peixe-Boi , que sugere emergir das águas profundas para sobrevoar e guarnecer a multidão, num encontro fraterno e festivo que evolui pelo centro histórico de Belém.
A cada ano o Cordão do Peixe-Boi trabalha com um eixo-temático, evidenciando as manifestações culturais de diferentes regiões do Pará.
Essa atividade pretende refletir com a sociedade questões relacionadas à cultura e o meio-ambiente, através da realização de seminários que aproximam o conhecimento acadêmico do saber-fazer tradicional, na busca de explicações para a vida em harmonia com o planeta.
4. Quais são as alas do Cordão? E o significa cada uma delas?
A estrutura de organização do cortejo funciona da seguinte ordem:
Na frente vai o estandarte com o nome e a representação do brinquedo (no caso o peixe-boi). Em seguida pela ordem vão: 2º. As crianças com adereços e brinquedos representando animais marinhos. 3º. As pessoas que participaram das oficinas e ensaios de dança, levando adereços de materiais reciclados (garrafas pet). 4º. O boneco representando o Peixe-boi. 5º. Os atores circenses, com pernas de pau, portando máscaras, simbolizando os guardiões da floresta. 6º. O Batalhão da Estrela musical (grupo de percussionistas iniciados em oficinas e aperfeiçoados nos ensaios do cortejo). 7º. Orquestra de metais. 8º. Outro grupo de brincantes portando bandeiras coloridas (objetivo estético).
São aproximadamente 800 pessoas diretamente envolvidas com a manifestação. Envolvidas no sentido de terem participado das etapas de construção do cortejo.
5. Qual o significado do rito de chegada do peixe boi na Praça do Carmo, onde em círculo, numa entoada, saúdam o elemento principal?
Este rito é denominado de "Roda Ancestral". Momento de celebração com a cultura indígena e quilombola, onde são cantadas músicas das duas etnias. No caso dos quilombolas são executados sambas de cacete das comunidades do baixo Tocantins. Como é a tradição nestas culturas as músicas são cantadas em meio a uma grande roda que se movimenta no sentido anti-horário.
(1) Brincadeira encontra-se associada ao brinquedo: denominação popular de ícones das manifestações culturais.
(2) Peixe-Boi (o boi das águas): Um mamífero pré-histórico que não ultrapassa os 2, 8 metros e pesa cerca de 450 quilos; dócil, que tem resistido ao tempo, mas vive em intenso processo de extinção, alvo da pesca predatória, da impunidade e do desrespeito à fauna da região Amazônica. O Peixe-Boi é do grupo dos sirênios, nome de origem mitológica, em razão de sua cauda e de seu canto (vocalizações) semelhante às sereias. O preocupante é que ele tem uma baixa taxa de reprodução. As fêmeas têm geralmente um filhote a cada três anos, sendo um ano de gestação e dois de amamentação.
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Quem acompanha o Arraial do Pavulagem com certeza já deve ter esbarrado no casal de foliões Godofredo e Luana, ambos paraenses, ele com 54 anos; ela com 60. Sempre numa alegria contagiante. No cordão do Peixe-Boi, que saiu às ruas neste último dia 11, lá estavam eles, caindo na folia. Em entrevista à coluna, o casal dá suas impressões sobre o grupo, sua importância para a cultura regional, além da alegria que eles têm em participar desta festa. Acompanhe:
1. Há quanto tempo vocês acompanham o Pavulagem?
Há pelo menos 12 anos. Além do Cordão do Peixe Boi, participamos dos Arrastões de Junho realizados aos domingos do mês de junho e do Arrastão do Círio realizado no sábado que antecede o domingo do Círio. Sempre que é possível assistimos a apresentações ou eventos dos quais a Banda participa.
2. Qual a importância do grupo para a cultura do Estado?
Vemos como preservador e incentivador da música, do folclore e da cultura regional, pois, não são apenas as toadas de Boi, mas também Xote, Lundu, Carimbó, Síria e outros ritmos. Ao se transformar em uma ONG o Arraial do Pavulagem criou um ambiente participativo para crianças, jovens e adultos em desenvolver habilidades que facilitam a preservação cultural.
3. O que leva vocês a acompanharem sempre o Pavulagem?
Participamos porque nos diverte, causando-nos um grande prazer, pois há o movimento da dança bem ritmada, dos sons que nos agradam. Para nós os arrastões são programas deliciosamente obrigatórios.
Através de Godofredo e Luana, a coluna homenageia todos os foliões e não foliões desse carnaval. Dancem, cantem, divirtam-se bastante, mas com moderação! Bom descanso também para aqueles que preferem recostassem no travesseiro ou num bom livro de cabeceira.
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