WebÁlbum
TALENTS
 
 
 
 

Afinal, de quem é a culpa?

Mariiiiiiiiiiiiia, cadê o relatório que deixei ontem em cima da minha mesa? Diz o chefe, muuuuuito irritado. A secretária apavorada responde: "Chefe, não tinha nenhum relatório aqui". Ele mais irritado ainda, retruca e xinga a "ré" pela sua desorganização. Maria fica enlouquecida, procurando o dia inteiro, por um documento que a "vítima" havia deixado em casa. Ao final da tarde, exausta, numa procura em vão, sentindo-se completamente culpada, se assusta com a chegada do todo poderoso.

Com a cara sorridente ele diz: "Acheeeei!!!!" Calma! Consigo ouvir daqui seus pensamentos... Já viu esse filme antes? Eu também, mas quem nunca se sentiu culpado por aquilo que jamais fez? Quem nunca culpou o outro por aquilo que fez e julgava não ter feito? Pouquíssimos talvez.

A culpa vem da tradição cultural judaico-cristã. Adão e Eva foram os precursores: o homem disse que a culpa era da mulher e esta repassou à serpente. Não é a toda que este sentimento, no sentido religioso, geralmente é associado ao pecado. Nesse jogo de empurra, empurra entre Adão e Eva, qual a semelhança com os dias atuais? Toda. Só mudam os personagens.

Pelo lado emocional, a culpa é percebida como um sentimento. O Sentimento de Culpa gera um sofrimento que reprova a si mesmo. Costuma ser a frustração entre o que não se fez e o que deveria ter feito. Esse estado leva a pessoa ao arrependimento ou remorso. Na origem da palavra, arrependimento quer dizer mudança de atitude, ou seja, atitude contrária, ou oposta, àquela tomada anteriormente. Já o remorso é um sentimento experimentado por aqueles que acreditam ter infringido um código moral.

Julgam-se passíveis de alguma censura. Como não querem sofrer punição se autocondenam para fugir da condenação de outros.

Costuma-se dizer que quem sente remorso não está verdadeiramente arrependido. Está apenas motivado pelo medo da punição, tentando aparentar, às vezes para si mesmo, o arrependimento verdadeiro. Daí castiga a si próprio, como forma de se redimir e ser poupado do repúdio, ainda maior, vindo da sociedade ou da pessoa "ferida" por ele.

Na realidade, a culpa é um método eficaz de fazer com que uma pessoa se submeta aos caprichos ou desejos de outra. Nela, vem embutido o perdão. Quantos pais, patrões, professores e tantos outros cometem esse erro ao dizer: "... se confessar que teve culpa, te perdôo" ou "... se não contar, Deus castiga". A intenção pode até ser boa, mas não há como negar a chantagem emocional por trás da atitude.

Culpa é um sentimento característico do ser humano, mas não se nasce com ele. É implantado por outra pessoa ou por si próprio. Quanto mais sugestionável ou ingênuo for o indivíduo, maior seu poder de autodestruição. Na medida em que se cultiva a culpa por não conseguir o que o outro quer, aumenta a frustração e a submissão ao manipulador.

Esta sensação surge também quando há uma exigência para fazer algo que não se tem vontade ou vocação. Há uma falsa compreensão de que para ser bom, é necessário agradar as pessoas. Fazer apenas o que o outro quer, só aumenta sua culpa e dependência. Um bom começo é estar atento ao seu próprio íntimo. Parar de fazer o que anula seu livre arbítrio. Procure agir apenas naquilo que lhe é possível fazer ou aceitar.

Sabe-se de fato que o sentimento de culpa não é privilégio de poucos. Para se livrar dele, siga o que é correto aos seus olhos, tomando cuidado para não causar danos a si, nem aos outros. Mas se mesmo assim, errar, nada de se sentir culpado.

Nessa hora, o arrependimento é válido - não o remorso -, porque por trás dele está o aprendizado e a possibilidade de correção. Sobre a culpa não há remédio. É apenas um sentimento inútil que fica ali, martelando, deixando-o imóvel.

Portanto, ninguém é culpado. Nem você, nem ele, nem ela, nem muito menos eu. O erro faz parte da vida e portanto, do aprendizado de cada um. Somos todos inocentes, até que provem o contrário. Ufa! Que alívio!

Culpa dos Males que nos Acontecem

Em todos os males que nos acontecem, olhamos mais para a intenção do que para o efeito. Uma telha que cai de um telhado pode ferir-nos mais, mas não nos desola tanto como uma pedra atirada de propósito por uma mão maldosa. O golpe, por vezes, falha mas a intenção nunca erra o alvo. A dor física é a que menos se sente nos ataques da sorte e, quando os infortunados não sabem a quem culpar pelas suas infelicidades, culpam o destino, que personificam e ao qual atribuem olhos e uma inteligência disposta a atormentá-los intencionalmente.

É o caso de um jogador que, irritado com as suas perdas, se enfurece sem saber contra quem. Imagina que a sorte se encarniça intencionalmente para o atormentar e, encontrando alimento para a sua cólera, excita-se e enfurece-se contra um inimigo que ele próprio criou. O homem sábio, que em todas as infelicidades que lhe acontecem só vê golpes da fatalidade cega, não tem essas agitações insensatas; grita na sua dor, mas sem exaltação, sem cólera; do mal que o atinge só sente os ataques materiais, e os golpes que recebe podem ferir a sua pessoa, mas nenhum atinge o seu coração.

Jean-Jacques Rousseau, in 'Os Devaneios do Caminhante Solitário'

Ler outras edições

topo