Fim do relacionamento? Saiba dizer adeus.
Despedir-se de algo ou alguém que não faz mais sentido e abrir espaço para um novo ciclo da vida, é renovador e natural. Sendo assim, por que é tão difícil dizer adeus?
Começar um novo ciclo tanto quanto por fim a uma fase da vida, são coisas que fazem parte do cotidiano das pessoas. Algumas dessas transformações acontecem em doses suaves, quase imperceptíveis ao longo do tempo. Outras vêm como um furacão, atropelando e queimando por dentro. Chega a se assustador! O "novo", costuma trazer consigo o medo do desconhecido. Pensamentos como esses se instalam: "Será que vou dar conta?". "E agora, como vivo sem ela?". "O que me espera pela frente se eu deixar esse emprego?". Sem dúvida é mais fácil insistir numa situação, que mesmo ruim, é conhecida, do que se aventurar num mundo novo. Insistir num relacionamento destrutivo, mas que não atemoriza mais, se torna cômodo - embora não pareça. Da mesma forma com relação ao chefe, de quem se reclama o dia inteiro, mas não tem coragem de deixá-lo, até para não ter que provar sua competência novamente. O fato é que, dizer adeus não é tão simples assim. Mesmo numa situação insatisfatória, poucos conseguem perceber quando uma etapa se esgota e deve ser finalizada, até para abrir espaço para um novo ciclo que pode ser melhor que o atual.
Agarrar-se firmemente a uma situação conhecida, ainda que desagradável, é natural. Para relaxar e deixá-la ir é preciso antes de tudo entender o sentido do adeus. Ele, por si só, não significa abandono nem fracasso. A carga negativa que gira em torno da despedida, é suavizada na representação trazida pelo psicólogo Wagner Canalonga, da sociedade Taoísta de São Paulo: "Quando se passa por uma porta, ao mesmo tempo em que você deixa um espaço para trás, outro ambiente se abre em sua frente. Ou seja, a mesma porta que se fecha, impedindo que você volte ao cômodo anterior é a mesma que abre para o novo compartimento". O que acontece é que às vezes estamos tão presos ao que ficou para trás, que nos esquecemos de ver o que está em nossa frente. Assim, os melhores momentos se vão, por puro apego ao passado.
Mas será mesmo que é hora de partir? Essa costuma ser uma das maiores torturas na hora de decidir. O processo de despedida costuma carregar esse tipo de dúvida. Às vezes, querer mudar pode ser simplesmente um processo de fuga, mobilizado pelo desejo de abandonar uma situação desconfortável. Isso pode acontecer quando um novo desafio, representado por uma nova tarefa, pode fazer com que o empregado se sinta ameaçado. Da mesma forma quando a intimidade começa a se aprofundar num relacionamento amoroso e um dos pares não está preparado para enfrentá-la, isso pode assustá-lo. Em ambos os casos, a pessoa costuma fugir às pressas e por fim ao que está gerando desconforto. Essa sem dúvida não é uma escolha madura. Portanto, antes de tomar qualquer decisão precipitada, se pergunte antes: por que quero fazer isso? Para escapar de uma situação difícil? Ou porque quero dar um novo rumo a minha vida, de forma mais construtiva? Ouça a voz da razão e do coração.
Outro ponto assustador na despedida é a dor que provoca. Por que será que dói tanto dizer adeus? O psicólogo Arnaldo Bassoli, da Associação Palas Athena-São Paulo, responde da seguinte forma: "Atribuímos nossos próprios significados às pessoas e às situações e isso nos liga a elas de tal forma que não conseguimos nos desapegar". O apego faz com que se queira reter até mesmo o que nos faz mal, só para não ter que descartá-lo. É o instinto de posse falando mais alto. Para materializar melhor o pensamento, Bassoli traz uma metáfora budista que mostra como trabalhar o desapego em situações de transformações naturais da vida: "Segure firmemente um objeto em suas mãos, alongue os braços à sua frente com a palma da mão para baixo e relaxe seus dedos: você perderá o que carrega (deixe-o ir). Contudo, se mantiver a palma da mão para cima, afrouxando os dedos, o objeto ainda estará ali. O segredo, então, é conservar o que se tem com desapego, ou então, soltar de vez o que não tem mais valor".
Dizer adeus sem dúvida é um ato de coragem, ainda mais quando somos impelidos por falsas ilusões, de que tudo vai mudar e de que seremos felizes para sempre. O que as pessoas esquecem é que essa felicidade precisa ser conquistada todos os dias, com escolhas conscientes. O medo da perda costuma deixar as pessoas cegas e isso dificulta a tomada de decisão. A sensação de perda é aliviada, quando se percebe que por trás de toda renúncia há um ganho e um aprendizado que se faz conhecer com o tempo. Portanto, vale à pena refletir sobre o pensamento da filósofa Dulce Critelli: "Todo adeus traz, consigo, um sim para a vida dito imediatamente antes". Sendo assim, muitos "sims" para todos nós!!! Sejamos todos muito felizes em nossas escolhas!
Texto inspirado no artigo de Fernanda Ceccon, na revista "Vida Simples", maio/2007.
Ler outras edições
|