Nos bastidores do Círio, um gesto de amor
Realizado em Belém do Pará, no segundo domingo de outubro, há mais de dois séculos, o Círio de Nazaré é um dos momentos mais esperados pelo povo paraense. A uma semana de acontecer, a cidade está em festa!
Uma das maiores procissões católicas do mundo, o Círio reúne, anualmente, cerca de dois milhões de romeiros numa caminhada de fé pelas ruas da capital paraense. Um espetáculo grandioso em homenagem a Nossa Senhora de Nazaré. Ao longo da procissão, ícones traduzem a fé e devoção do povo do Pará: o manto, cuidadosamente desenhado e bordado, cobre Nossa Senhora; a berlinda, que transporta a Imagem Peregrina, guarda a surpresa das flores a cada ano; a corda, atrelada, ou não, à berlinda, simboliza o ato de fé, força e solidariedade. O carro dos milagres conduz as "promessas dos promesseiros".
Mas como será que tudo isso ocorre? O que faz com que pessoas tão ocupadas se doem de forma intensa na organização do Círio? Como se sentem ao realizar esse trabalho? Para responder a essas perguntas, a coluna Talento & Carreira, ouviu pessoas, que através dos bastidores, fizeram e fazem com que a maior e mais esperada festa dos paraenses, aconteça na sua plenitude.
São horas, dias, meses, anos e anos de dedicação. Pessoas comuns, muitas vezes em total anonimato, trabalham o ano inteiro, durante grande parte de sua vida, na complexidade das ações que giram em torno do Círio de Nazaré. Um trabalho que vai muito além da organização das festividades. Do turismo à economia do Estado; da culinária à abstinência; do religioso ao profano; do rico ao pobre; do promesseiro ao bastidor, não há quem fique de fora. Todos se envolvem, independente da religião, unidos por um gesto de amor e fé! Que venham mais e mais Círios, sempre!!!!
ENTREVISTA
Mízar Klautau Bonna
Mizar, juntamente com seu marido, Evandro Bonna, diretor benemérito da festa de Nazaré, trabalha na organização do Círio desde 1965. Desenhou nove dos mantos oficiais de Nossa Senhora, inclusive o deste ano. Nessa caminhada, muitas histórias e estórias para contar.
Corajosa, irreverente. Apaixonada pelo que faz, num linguajar muito próprio, ela assim se apresenta:
Mulher (atrevida). Mãe (muito de tudo). Escritora e poeta (nas horas vagas)
Nascida em Belém, 71 anos de idade e 51 de casamento.
Mãe de seis filhos, atualmente uma no céu e cinco na terra. Genros, noras e 11 netos.
Início
Percebia pouca comunicação sobre a Festa de Nazaré. Tratei de sacudi-la junto aos jornais e rádios da cidade. A curiosidade sobre o Círio foi crescendo, então escrevi muito sobre ele. Publiquei livros e até "briguei". Pelo Círio tive bons debates através do Diário do Pará. Sou impregnada de Círio e fico emocionada quando falo dele. Você pergunta como pessoas ocupadas se doam tanto para preparar a Festa de Nazaré. Você sabia que só pessoas muito ocupadas fazem tempo para servir com amor e fé? Pois é.
Dedicação
O tempo que ocupo não tem medida, pois a Festa de Nazaré e o Círio fazem parte de nossa vida desde sempre. Dentro desse grande acontecimento já fiz de tudo, desde lavar altar, preparar o Nicho, decorar a Berlinda, decorar o altar da Basílica, os andores de procissões. Quando era menina, fui garçonete nas noites da Barraca da Santa. Depois, cozinheira chefe. Pegava no pesado. Isso no tempo em que as esposas dos diretores pouco participavam. Até um arco dirigi, criei e acompanhei sua fabricação. Foi um barato! Tudo "digratis", só na base do amor. Lembro quando os filhos eram pequenos e eu precisava deixá-los na casa da mamãe para preparar a Berlinda com D.Vivi Martins, professora Helena, Lourdes Pires e mais alguma amiga da Confraria de Nazaré. Via a recompensa no momento em que a Berlinda passava e os filhos vibravam. Quando chegava em casa, os familiares telefonavam para me dar parabéns. Muitas peregrinações de casa em casa junto com o Evandro.
Sensação
A sensação é a melhor possível, mesmo não atuando hoje como antigamente. Sabe como é, a idade vai pegando e a maneira de colaborar muda. Escrevi cinco livros sobre o Círio. Desenhei 9 mantos oficiais da imagem para o Dia do Círio. Vivo antenada em Nossa Senhora, tanto que me chamo "bisbilhoteira" da vida de Nossa Senhora.
Bastidores
A Festa de Nazaré pelos bastidores é trabalho intenso. Acontece o ano inteiro e intensifica em setembro, quando a parte espiritual das visitas e peregrinações prepara o povo para o grande dia. O momento especial do Pará é o Círio de Nazaré. O católico da terra se alegra com muitas festas religiosas como Pentecostes, Páscoa, Natal. Todas mundiais. Já o CÍRIO é nosso, é do Pará. Ele está se espalhando belamente (tirar essa frase). Inspirado em Portugal ele é diferente. Repito: é nosso, é do povo paraense.
Estórias
Casos curiosos presenciados foram muitos, tanto que publiquei um livrinho de bolso: "Maria seu povo e suas estórias".
D.Judith, de tão baixinha, só acompanhava a procissão, do último domingo, debaixo do andor da "minha mãezinha", como ela chamava Nossa Senhora. O Sizenando, aposentado como gari da Prefeitura de Belém, diariamente varria a lateral da Igreja para a casa da "santinha ficar limpinha". Estava sempre feliz e sorrindo por poder, ainda, servir sua "mãezinha do céu", com o que sabia fazer. Nossa garota de dois anos escapuliu da casa dos avós desaparecendo na multidão do Círio. Deu-nos um susto violento. Eu, grávida do caçula, fiquei na janela rezando em direção à Basílica, até que ela surge montada no ombro de um homem alto. Apontava para a janela onde eu estava e dizia: "Du céu", "Du céu". O "anjo da guarda" só me disse: "Eu a encontrei há uns seis quarteirões daqui. Coloquei-a nos ombros, rezei e disse: posso até perder o almoço, mas vou fazer o trajeto do Círio ao contrário, inteirinho, para ela poder dizer de onde é".
O espaço é pequeno para contar outras estórias. O importante é o amor que nosso povo sente por Ela.
Curiosidades
O termo "Círio" tem origem na palavra latina "cereus" (de cera), que significa vela grande de cera.
No início era uma romaria vespertina, e até mesmo noturna, daí o uso de velas. No ano de 1854, para evitar a repetição da chuva torrencial como a que havia caído no ano anterior, a procissão passou a ser realizada de manhã.
No Brasil, o Círio de Nazaré foi instituído em 1793 em Belém do Pará, e até 1882, saía do Palácio do Governo. Em 1882, o bispo Dom Macedo Costa, em acordo com o Presidente da Província, Dr. Justino Carneiro, instituiu que a partida seria da Catedral da Sé em Belém.
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