Carnaval 2008 - Olha o arrastão aí, geeeente!
Nas proximidades do carnaval, o que não faltou foram manifestações populares: passeatas dos funcionários temporários, em protesto às demissões, prevista para acontecer logo após a quarta-feira de cinzas; arrastões dos ambulantes que teimam em ficar nas calçadas e praças públicas, sem nenhum padrão. Tem até o "arrastão ambiental", da Polícia Federal, para defender a devastação da Amazônia. Quem diria! Nesta época, esperava-se por outro grande espetáculo: o carnaval. Já que é assim, então por que não tirar proveito do que temos de melhor, a cultura popular brasileira e aprender um pouco com ela, na forma de gestão? Nada mal.
Seja nas manifestações de protesto ou nas populares, em ambos, é possível observar o quanto o resultado final depende da visão, capacidade, empenho e desempenho conjunto. Um exemplo bem sucedido é o Cordão do Peixe-Boi, outro tipo de arrastão, conduzido pelo grupo musical Arraial do Pavulagem. Ao mesmo tempo em que ele alegra e enfeita a cidade de Belém com suas alegorias, músicas e cortejo popular, faz um apelo ecológico à sociedade, com temas ambientais, sem abrir mão da leveza e criatividade. A mesma observação cabe às escolas de samba e blocos carnavalescos. Com alegria e entusiasmo, há muito que ensinar na forma de organizar e gerir suas instituições.
Às empresas que pretendem atingir o sucesso de forma sustentável, é importante salientar: o sucesso não é apenas uma questão de fama. Esta é passageira e altamente volátil. O resultado positivo de qualquer que seja o grupo, agremiação, empresa ou até mesmo Governo, envolve determinação, disciplina, espírito de time, suor à camisa, organização e controle. Porém há um estilo de gestão diferente e despojado, que as empresas bem sucedidas começam a descobrir em algumas das manifestações culturais brasileiras.
Sem descartar as tradicionais técnicas de gestão, por que não aproveitar aquilo que diferencia os brasileiros e os torna tão especiais? Sua criatividade e jeito descontraído de ser. Quem disse que o dever é incompatível com o prazer? A informalidade, na dose certa, acelera a produtividade. E a rentabilidade é o par perfeito da felicidade. Para a antropóloga Maria Julia Goldwasser, em seu livro chamado "O palácio do Samba - Estudo antropológico da Escola de Samba Estação Primeira da Mangueira", a Escola de Samba é um dos maiores exemplos do "cáos estruturado que produz resultados de uma beleza incomparável". Ela afirma que "existe uma relação de necessidade entre a Escola-Empresa e a Escola-Desfile em seus respectivos graus de estruturação: é da dramatização, que se encena no Desfile, que se deriva o significado de toda prática efetuada no decurso do ano, enquanto na Escola-Empresa geram-se os recursos necessários à efetivação deste."
Não é à toa, que os nove quesitos julgados nas Escolas de Samba (bateria, samba-enredo, harmonia, evolução, alegoria e adereços, fantasias, comissão de frente, mestre-sala e porta-bandeira), tem tudo a ver com uma estrutura organizacional. Numa escola de samba, a alegria dos brincantes é essencial para o resultado final. Numa empresa, o alcance dos objetivos, especialmente a médio e longo prazo, é afetado diretamente pela satisfação de seus empregados. Já imaginou como seria para a empresa ter seus "brincantes" insatisfeitos ao longo do "desfile"? Muito pouco produtivo. Da mesma forma que, de nada adianta ter um bom "Mestre-Sala", se não existe harmonia entre as "alas" da empresa.
O jeito brasileiro de ser, é sem dúvida um diferencial. Francesc Petit, um dos sócios da DPZ, uma das maiores agências de publicidade do Brasil, define sua empresa como uma "confraria anarquista." Conta a seguinte história: "Um dia nós recebemos a visita de um cliente americano. Preparamos uma apresentação vistosa e criamos um ambiente solene no qual todos estavam falando inglês. No meio disso tudo, estava o candidato a cliente americano, cabelo branco, sapatão grande, acompanhando a exposição. Aí, chegou a hora de mostrar o organograma. O americano olhava e não entendia muito bem. Em determinado momento perguntou: "Como funciona o organograma?". E pegos de surpresa respondi: "Olha, funciona como Deus quer, porque nós não temos a mínima idéia". Todos no salão caíram na gargalhada, inclusive o americano. Nós ganhamos a conta".
Para o consultor Renato Bernhoeft, o que parece ficar claro neste conjunto que engloba empresa, grupos folclóricos e escolas de samba é que precisamos olhar com mais atenção e menos preconceitos para alguns traços da nossa cultura na busca de modelos mais adequados a nossa realidade. Sem deixar de lado o que vem ocorrendo em outras realidades geográficas e culturais.
Ele afirma ainda que: "A visão sistêmica de uma empresa que envolve funcionários, colaboradores, clientes, acionistas, comunidade e concorrentes demonstra que não existem antagonismos em algumas destas dualidades: Rentabilidade e satisfação; Produtividade e alegria; Sucesso e felicidade; Dever e prazer. Lideranças comprometidas com estas conjugações e desafios poderão tornar nossas empresas em entidades vivas, dinâmicas e duradouras. E quem sabe até mesmo referências internacionais como se tornou o nosso carnaval através das escolas de samba que dão lucros, estrutura, empregos e alegria a este evento".
Sendo assim, abram alas para as baterias, atabaques e reco-recos! Hora de colocar (ou tirar) suas fantasias, relaxar e criar um novo samba enredo, onde o trabalho e o prazer, finalmente desfilem de mãos dadas. Viva o arrastão da alegria! Feliz carnaval a todos nós!
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